domingo, abril 11, 2010

mãos de fiandeira




todo dia, no exercício de escoar a si mesma o tempo, com a delicadeza de quem se vela, mantinha o hábito de dedilhar o piano, de inventar afazeres manuais (basculhos de enfeitar, sabonetes pintados em desenhos miniaturas, flores de sabonete, velas) e, sobretudo, costumava criar guloseimas (tortas, bolos, docinhos) e fiar fiar fiar... tinha almofada de renda de bilros, gostava de tudo à antiga forma de procedimento, da que se planta da semente e se zela até o germinar.
assim era que fazia as roupas para os netos do aproveitamento das sacas de algodão tão alvo que lhe trazia o marido, já tão cioso índio que era, das sucatas de sua lida com o açúcar...
e pra neta muito alva fazia maior especiaria: tingia o costurado, pra menina não restar tão sempre de uma só cor branca.
hoje começa a memória remota a assaltar as palavras poucas. a saudade e o atraso pra reencontrar o afeto de mais de cinquenta anos de vida comum, a saudade da terra dos doces (natal) e a invocação materna: infante ponta que se religa.
mas as mãos permanecem hábeis, agora, mesmo mais lentas, mas sem artrose e peritas em fazer cafunés...

imagem: A Fiandeira, de Van Gogh

5 comentários:

Adely disse...

dona nina

Renata Maria disse...

Que lindo! ♥

lagarta disse...

doninha, no alvo! é a mais linda luzinha que me brota de te ver aqui...

chica, outra felicidade: tu por aqui.

aeronauta disse...

Mãos de fiandeira, como as suas, tecendo lindas palavras...

lagarta disse...

ai, minha querida amiga, como me traz uma lufada de alegria tua visita e como encoraja ouvir doces palavras de ti, a quem tanto admiro! beijos saudosos.