quarta-feira, setembro 15, 2010

poemeto desajeitado




como escorregão depois de tropeço, palavras que se dão as mãos e fazem emenda e palhaço no passo sem jeito de fazer riso, querendo do diário e miúdo extrair o siso e pôr tino no leve encargo de existir encantado........................................................................

muitas linhas caminhante exaurido e extenuado, o verso se pergunta: onde me posso ver abraçado?

salta em sílabas como compasso de tambor ritmado; quer soprar melodias austeras de rebelde e geme como lancinante e mudo traço de reta no asfalto.....................................................................

escorrega nos pontos descarrilhados, é pelas palavras usado e vira verso e poema e cabeça trôpega na partitura de afetos de algum leitor desavisado.

vírus sem dono, depois de escrito: jaz contaminado.

terça-feira, setembro 14, 2010

sonambulismos




movimentos de corpo dormente, que parece inconsciente, e se exime das tarefas insanas, mas se dedica como operário padrão ao mais que além do desejo, o que jaz no que lateja: impulso e gozo.

domingo, agosto 22, 2010

ismos e soluços



do senso comum tiro o pé
que atolo no pirão à mesa
em fervura borbulhante da assepsia

pega o peixe, preta
traz fumegante tirrina
da tua coroa que é a cozinha


nem de luva
proteção
nem mão
de lavoura
tira o úmido da terra

desfaz a proteção
do corpo ante corpo


convida a formiga
me lambe o doce
do piche em flor
o azinhave do meu cobre

sem sapato
me instalo fincado
nessa rua
o senso é bom
mau mesmo é o desacato

põe ordem na natureza
e macaco em todo galho

terça-feira, agosto 03, 2010

KKKKKK


"O riso precisa de eco". Isso nem é meu, é de Henri Bergson. Mas concordo tanto. E gosto deveras de rir, como elixir de salvaguarda da minha humanidade!
Não confio em quem não sabe rir; menos ainda se, somado a isso, também não gosta de comer (em todos os sentidos de alimentos, é claro!). Comer e rir: prazeres humanizantes fundamentais que precisam de eco. E tenho dito.

domingo, julho 11, 2010

ovo a la coq





as vezes tenho muita raiva de não me entender em certas situações, eu queria ser mais plano terreno, sem acidentes geográficos de genealogia, sem tanta óbvia interferência de quem se questiona. e, como allen, o woody, eu queria sonoramente admitir e internalizar: whatever works...
e todo meu otimismo seria suficiente para a consciência de tudo que é péssimo não me tomar de assalto como susto que dá soluço por dias seguidos, ou como um cílio que cai no olho e fica escondido no buraco negro do espaço em que habita o globo ocular por uma semana...
como quem aprecia de verdade nem esperar que a gema do ovo cozinhe até ficar consiste e, até, prefere apreciar a gema líquida, ou ainda mais, o ovo a la coq.

quarta-feira, julho 07, 2010

jardim




eu gosto de saber
que os felinos me seguem
que meu pai
é uma tia velha
e sofri abusos
na infância
tirana
eu mordia
como quem toma
para si o naco
mais tenro
do asfalto
como moradia

terça-feira, junho 22, 2010

joão






joão
xangô
ou conforme seja,
aquele que pela água faz vida
aquele que reina o fogo e o trovão
que raios nos protejam,
que nos opostos se tenha
congregação,
congraçamento
e devoção.

viva são joão!
viva xangô menino!

sexta-feira, junho 18, 2010

dia de viagem, triste e saudosa...


tão lindo na foto, descontraído. tinha uma cara que às vezes parecia sisuda, de tão comprometido que era com suas convicções. um humanista ferrenho, de uma consistência e lucidez particulares e raríssimas. vai, mas deixa uma herança inquestionável. vai, josé, vai espalhar tua semente saramaga por outros campos de energia!

terça-feira, junho 15, 2010

carnavais... e eu que sou "do contra"...

hoje já ouvi que "não sou brasileira", numa das concepções mais óbvias e tortas do que seja patriotismo. e tudo isso só porque não me interessa nem um pouco o jogo do brasil na copa do mundo. alías, tenho um pequeno lampejo de interesse, sim. bem gostaria que a seleção perdesse logo na primeira parte da copa, assim a anestesia carnavalizante geral se dissipava. sinceramente, quando haverá presente (e deixará de ser país do futuro) para um lugar que para por tudo? um feriado atrás do outro; um clima de histeria macunaímica por causa de um esporte com imensa parte dos envolvidos tão corrupta quanto também imensa parte das pessoas e instituições do país?
meu são bakhtin, padroeiro da carnavalização medieval rabelaisiana, valei-nos!

domingo, junho 13, 2010

a esperança: última que morre?


estava eu exercendo ofício, na lida do ensino, quando nos visitou pela janela uma espécie de gafanhoto verde, popularmente conhecido como esperança. e ecoa-nos a crença popular de que, quando uma esperança - inseto - entra numa casa ou pousa sobre alguém é um bom presságio. mas quando há ventiladores de teto em funcionamento, e a esperança acaba por chocar-se, em seu voo, com as pás de ferro de um deles em movimento e cai, ofegando, até fenecer?

quinta-feira, junho 10, 2010

história de Zé




rapaz, era uma noite fria dos diabos... chovia canivete, como se costuma dizer. e eu, nem sei dizer, fui parar ali, naquele canto que eu nem conhecia. me perdi da minha trupe, me desgarrei, e nem mesmo sou uma ovelha. olha, foram dias vagando perdido, minúsculo de caber num dedal, magro como um pobre diabo condenado a fenecer de inanição. pra dizer a verdade eu nem sabia mais se sentia fome, eu era um arrepio de medo e uma angústia vital me agarrando desesperadamente a seguir vivente. e meu único recurso: eu miava, com todas as quase mais nenhumas forças que restavam. e não é que deu resultado! apareceu uma moça, mas eu já tinha tanto medo, que chamava ajuda e a temi, quando ela chegou. tentei me esconder da gigante moça. ela insistiu, como convém aos espíritos solidários e me recolheu.
de tão desnutrido, eu parecia já aleijado. minhas patas traseiras não se sustentavam, eu me arrastava com as dianteiras, precariamente. fui recebido, acolhido, esquentado, acalmado. me levaram a uma doutora que me compreendeu a fraqueza e a desnutrição. ganhei vitaminas e alimentos, além do carinho. agora, vou vingar, feito planta viçosa que precisa apenas de água e terra: pasto.
ahh, me batizaram de Zé, belo nome do qual me orgulho, porque me irmana a uma multidão, bem severina, bem maria, bem zé.

domingo, junho 06, 2010

sobre algumas expressões


o gato escondido com o rabo de fora, literalmente. E essa criança felina da foto adora brincadeira de gente, comigo. a preferida é o "pega", em que grito que vou pegá-la e saio correndo atrás dela, pra levar mil "pitos" dela e ela se esconder, sempre assim, como se fosse uma criança de 3 anos de idade, que "põe as mãos nos olhos e, por não estar vendo, crê que não pode ser vista"! ou seja, esconde-se deixando o rabo de fora!

quarta-feira, maio 19, 2010

da série: dicionário de termos literários



sabe a definição de poesia? as vezes é tão difícil definir algo, ao mesmo tempo tão simples e óbvio, que todo mundo sabe o que é, mas que teima em não assentar nas palavras de modo a se traduzir com objetiva e precisa leveza...
mas basta perguntar ao mocinho de óculos e ar intelectual, do alto dos seus nove anos, que ele criou precisa e ligeira definição, assim mesmo, de supetão:
"é um texto que libera emoções".
e tenho dito, assinando embaixo das palavras dele, Raminho.


imagem em: http://marisamelo.files.wordpress.com/2010/01/poesia_pura.jpg

no bico da cegonha




com quase dez meses de útero e tamanho "normal" de recém nascida, a menina de 47 cm veio de parto normal. diz a mãe que era um rebento tão lindo, cabeludinha e de nariz muito arrebitado.
muito teve que se atrever na vida, para dar conta do 1m e 3 cm que cresceu, até a vida adulta, conservando bem guardadinha e atuante a mesma criança que brinca com nina, seu alter ego felino e preto, no colo enquanto escreve...
e no mesmo dia em que nasceu o menino, só que 1ano e três meses depois... nascia o presente mais especial que ela receberia: o gêmeo.
um dia de festa dupla.

sexta-feira, maio 14, 2010

mês de apurar o sentido do tempo




celebração, que podem ser até coloridos fogos de artifício, de preferência sem estampidos, pois sou adepta dos sons em baixo volume, sempre. eduquem-se os tímpanos, respeite-se o alheio...
e assim faz-se o mês de maio, em mim, duplamente sempre. mês do dia de nascer, mês do dia de reiniciar uma contagem no calendário pessoal, afinal, meu novo ano começa no dia em que minha mãe me mandou pro mundo, preu sair do confortável útero... já passando dos nove meses!
e chegam boas novas outras, neste maio, como presságio de o quanto valem tenacidade, perseverança e, sobretudo, meu segundo nome: paciência.
ufa, eis que nasceu este novo "rebento" esperado 1 ano e meio depois. demorou ainda mais que eu pra chegar...
mas a relatividade de ampulheto me ensina, após daqui a 10 ou 20 ou 30 anos, que terão sido os 15 meses dessa espera? o que fica é o aprendido.


Foto: http://fotos.sapo.pt/7FzO3zByumMfF9Z8SkLq

sexta-feira, maio 07, 2010

parece até mais do mesmo




o quanto já escrevi por aqui sobre felinos, nem sei... mas acho que nunca principiei a história da minha funda relação com os bichos começada pelos cães: primeiro convívio e cuidado de estimação. talvez tenha mencionado arisco (o nome mais despropositado pra natureza de uma criatura; era ele um boxer tão afável que mais deveria se chamar mingau), companheiro meu embaixo da mesa de jantar. mas essa é história outra, a que penso já ter aludido neste sítio.
só que dos muitos cães, amores verdadeiros, sem dúvida, a vida me converteu: pelo encontro com zureta e nina. a proximidade e a coabitação com os gatos é ímpar, peculiar e sutil, como só a elegância e a dignidade da espécie poderiam proporcionar.
a fidelidade não submissa; o amor que ensina limites, medidas, respeito à individualidade e ao tempo de cada um; a independência que não conhece egoismo; o carinho na exata medida; a solidariedade e a paciência de dormir todas as noites ao pé da porta do quarto, para miar pontualmente e despertar para a acolhida matinal... não só aquele que o alimenta, mas aquele com quem se travou O laço. assim é o gato.
os tolos e ignorantes repetem chavões: que é interesseiro e apega-se apenas à casa...
minhas gatas me buscam por saudade; me seguem pela casa apenas para estar junto de mim, sem babar, sem latir, sem se submeter, apenas pelo zelo da companhia, pelo piscar de olhinhos reluzentes de uma quase coruja a dizer que amam.

apegam-se à casa apenas, não é? por que, então, quando viajo - apesar de ficarem em casa e terem quem as alimente e dê água - elas perdem pelos e ficam me buscando pela residência toda?

o cão é que é fiel ao dono, não é? e quem consegue afagar um gato que não conhece e que vem correndo e se estabanando, virando barriga pra cima? zureta e nina são fiéis à "dona" suposta delas (elas que me possuem, na verdade)... desafio os que cheguem e elas permitam intimidades e toques sem antes muito exame, uma aquiescência imensa minha e o veredito (delas) de que a pessoa merece essa concessão. já eu, posso tocá-las, mesmo que elas me saibam dizer sutilmente (com um levíssimo mover de coluna) que não querem o toque naquela hora. afinal, nós às vezes também não queremos ser tocados em um exato momento...

a cada dia descubro algo novo e diferente pelo olhar delas. a curiosidade e a audição inacreditável; o equilíbrio e a absurda elegância; a precisão no "pulo do gato"; a habilidade do silêncio eloquente; a maciez do pelo e o cheiro bom; a higiene e o cuidado de si (inclusive, zelando pelos dejetos enterrados)...

uma vida inteira, aliás sete, cercada de felinos é o que preciso para a cada dia converter-me mais em uma deles. amém.

fotografia: Raíssa Moraes

domingo, maio 02, 2010

canteiro laborioso




vontade de fazer lugar
franciscano sítio
onde espraiar a alma
contida pelo canto
do corpo cativeiro

um cultivo de subsistência
que se assenta
em comedidas abundâncias

um jardim sem distâncias
em que conversam rosas e jasmins
e não disputam
com vulgares borboletas brancas
nem belezas, nem olores
nem visitantes
passarinhos

um canteiro de nonsenses
e um cultivo de abandonos
pra que se atinjam
os condensados sonos
e os sonhos encravados

até nas insuspeitas gentes
que pelos desvãos dali passam
sem saber que lá se perdem
porque adentram espaço
em que lei não é regra
e só tudo o que impera
é a voz do silente

quinta-feira, abril 29, 2010

abril que veio, abril que vai...





só num galope desbragado é que, sem poder nos dar contar, percebemos o quanto é implacável o escorrer do tempo, e inventamos os dias e as horas e os calendários...

imagem: "A Mask Tolls The Knell"
(from Series to Edgar Poe)
1882, lithograph - ODILON REDON

sexta-feira, abril 23, 2010

O que você quer ser quando crescer?




Brincadeirinha das mais saudáveis no processo de lúdico conhecimento de si, despressentido ainda, para uma criança. A perguntinha "clássica" nos vem dos mais vários interlocutores: pais, "tia" das escola, tios e primos, amiguinhos... E tantos são os futuros: bombeiros, veterinários, bailarinas, caixas de supermercado (sim, meu irmão mais novo queria ser um), cantores... até médicos. Por que friso, por fim, o até médicos? Porque me causa espécie ver que, em uma distância de tão poucas gerações, entre meus amiguinhos e irmãos apareciam os que queriam ser médicos quando crescessem, apenas pelo lúdico de se brincar assim, sem as desculpas sexuais que também envolvem a expressão "brincar de médico". Sem puritanismos, meu dEUS! Mas como me assustam as escolhas destas novas geraçõezinhas, com quem lido há tanto tempo. Agora, todos querem ser médicos, mesmo os que já se formaram fisioterapeutas, enfermeiros, matemáticos até... E a outra metade quer "fazer direito"! Assim mesmo, nem é "ser advogado", mas ter diploma de bacharel em direito pra fazer concurso público.
Ai, meu são falecimento lúcido, valei-me Renato Russo: "Que país é este?" Doutores semi-deuses da medicina, porque só eles são profissionais "valorizados" e todos os outros que "os auxiliam" na área de saúde são subalternos que recebem, financeiramente, piso de remuneração muito mais baixo e, por isso, se sentem desvalorizados; ou de "doutores" bacharéis em direito (Doutor é quem tem Doutorado, óbvio assim), que nunca advogaram, mal sabem o que significa filosofia do direito ou justiça e apenas são funcionários públicos com perversa estabilidade, que acaba funcionando como "estagnação", e altos salários, cuja compensação é apenas o consumo. E salve a Tuckson" (Aquele carrão importado que parece um furgão e engarrafa a cidade, atropelando pedestres e ciclistas).

Me deu nostalgia e assumo! Viva a minha pequena trupe vital, na qual habitam bailarinos, palhaços, atores, cabeleireiros, jardineiros, fisioterapeutas, cineastas, costureiros, músicos, plantas, bicicletas e gatos, muitos gatos!

Eu queria ser bailarina, escritora ou professora (na verdade, os três), quando crescesse... Continuo sendo isso, na dança exercendo a pesquisa e a criação; na labuta diária, exercendo o magistério e, na vida, entranhada na escrita. Salve Jeová as gerações vindouras!, que ainda possam sonhar e brincar de "o que você quer ser quando crescer?"

Se não, quem valerá por nós na hora de uma reles pia entupida?

segunda-feira, abril 19, 2010

fragmentos de uma conversa...





sabe um dos melhores amigos que já fiz no meu bairro novo?
o funcionário da emlurb que sempre limpa por aqui, com aqueles carrinhos e farda vermelhinha.
é um negro lindo, de meia idade, chamado Tião; de Sebastião, suponho...
nos vemos todo dia, várias vezes, quando passo de bicicleta ou a pé.
outro dia, saí de carro, e ele estava sentado na sombra, descansando um pouco. aí, encostei o carro pra dar um oi.
ele ficou todo emocionado...
"mas eu que me aproveito de tu", eu disse. vivo te perguntando as coisas!
pergunto a ele tudo que é planta que aparece no caminho e não conheço...

eu costumo prestar atenção, justamente, no detalhe, no "despressentido". é onde moram essências.


imagem: Diálogo IX, de José Roberto Aguilar (1966)